domingo, 3 de julho de 2011

MARCHA DAS VADIAS DO RIO DE JANEIRO - 02/07/2011



Carta Manifesto da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro

Por que marchamos?

No Rio de Janeiro, marchamos porque apenas nos primeiros três meses desse ano foram 1.246 casos registrados de mulheres e meninas estupradas, uma média de quatorze mulheres e meninas estupradas por dia, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Rio de Janeiro, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres e meninas que são violentadas ao longo desses caminhos; marchamos porque foi preciso a criação de vagões femininos no trem e no metrô para que não fossemos sexualmente assediadas durante o uso desses transportes.

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já somos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!


Para saber mais:

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Um comentário:

Anônimo disse...

Nunca tinha ouvido falar desta "Marcha das Vadias", logo não sei se foi a primeira ou, se não foi, quantas já aconteceram antes.
Mas creio que, na realização da próxima, é de sumo interesse a ampla divulgação e participação da AMV, e cabe estimular a participação de TOD@S nesta Marcha: das Mulheres (alunas, colaboradoras, professoras) marchando juntas, e dos homens (alunos, colaboradores, professores) apoiando, ouvindo, aplaudindo e, principalmente, REFLETINDO sobre suas condutas ao longo de suas vidas, e mais principalmente ainda, MUDANDO A CONDUTA.
Temos que refletir como temos tratado as mulheres que nos cercam, sejam conhecidas, vizinhas, parentes, mães, esposas ou filhas, ou simplesmente as "desconhecidas", as "vadias", "putas" ou "safadas" que encontramos (ou queremos encontrar) a cada dia,
pra "satisfação plena" de nossos desejos sexuais, porém não numa relação realmente livre, e sim num tipo de relação no mínimo HIPÓCRITA, onde podemos até "comer" uma vadia, uma puta, uma safada, mas nunca (NUNCA) casar com ela, viver com ela, apresentar à família e aos amigos, ter filhos com ela.
Ô sociedade hipócrita e infeliz essa...
E ressalto que não vejo NENHUM PROBLEMA na satisfação plena de qualquer desejo sexual de qualquer pessoa, desde que seja de comum acordo entre tod@s os participantes, e que não sejam as mulheres, depois, esculachadas por isso.
Se queremos, REALMENTE, um Mundo Livre, temos que parar de ensinar nossos filhos a "comerem todas" e a nossas filhas a "não darem pra ninguém".
Temos que parar de tratar nossos filhos "como homens", e ficarmos orgulhosos disso, porque já estão transando com meninas, e a manter nossas filhas trancadas, vigiadas, para que não sejam "mulheres" de ninguém, pois se forem, as punições já estão anunciadas: xingamentos, difamações, estupros (já que "deu', agora dê pra mim!), tapas na cara, surras, expulsões de casa, e até assassinatos.
Bom, creio que fica notório que precisamos melhorar, e MUITO.....
Mas para melhorar precisamos, além da reflexão, de muito estudo.
Precisamos ver qual a "contribuição" de cada segmento desta "sociedade de mierda" na perpetuação deste machismo.
E as raízes dele estão por aí...no capitalismo, com seus salários diferenciados; na sociedade e família patriarcais; na igreja com seus "mitos" de virgindade-santidade e na noção de "pecado"; na escola; na cultura de fazer da mulher, desde o nascimento, um produto de beleza e sem direitos (afinal, perguntamos às nossas filhas se elas querem furar as orelhas???); e na cultura de "bons modos" (menina senta de pernas fechadas, não corre e não grita, brinca de boneca e não de carinho, e ainda ganha vassourinha de presente de aniversário, de natal, de dia das crianças ou até sem data especial,pois pra aprender a "varrer e cuidar da casa", qualquer dia é dia...)
Mas "vamo que vamo", que um dia melhora...
Se até o câncer evolui, porque não nós?
Abraços a tod@s,
Marcos.